Waters of High Seas
“Waters of High Seas” (Águas de Alto Mar) é uma instalação site-specific criada para o espaço de projetos super bien! Berlin, que é uma estufa localizada no pátio de uma antiga escola da RDA (hoje, o local abriga um edifício com ateliês de artistas e uma sala de exposições, além da casa de vidro).
A estrutura transparente da estufa me fez pensar em uma instalação em que os mapas vazados pudessem ser vistos de todos os lados e através deles. Os mapas de 1972 representam diferentes regiões e mares do mundo – o oceano Atlântico e o Ártico, o Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho.
Cortados, dobrados e pintados, os mapas mostram, de um lado, a região dos territórios – onde se veem as regiões de água como partes vazadas e espelhadas, como sombras pretas. Se vistos do outro lado, os mapas aparecem como formas pretas, abstrações, a partir das quais surgem recortes dos mares e oceanos. De certa forma, os mapas revelam as suas formas orgânicas que se expandem para além dos contornos da cartografia impressa sobre papel e se mesclam com o ambiente externo, quase mimetizando a natureza ao redor.
As regiões de água, que costumam ser menos detalhadas nos mapas regionais, são zonas de transformação e de disputa. É nos oceanos que se constroem infraestruturas (como cabos de internet), que se estabelecem zonas de navegação onde explorações, migrações ou disputas fronteiriças ocorrem (com ilhas artificiais sendo construídas para expandir as linhas de fronteira), e também onde se registra o aumento do nível das águas devido ao aquecimento global.
Os mapas guardam marcas de uso, pois foram utilizados por estudantes do curso de cartografia. Hoje, desatualizados, esses mapas perderam o seu uso e se transformaram em material descartável. À medida que fronteiras mudam de lugar, países mudam de nome, outros deixam de existir, os mapas ficam datados e passam a ser registros de um determinado momento.
Os materiais que testemunham nossa cultura e se tornam resquícios descartados são os que mais me interessam: quais histórias e referências esquecidas trazem à tona? O que diferencia esses materiais datados de materiais de valor histórico? Como esses mapas impressos (hoje ultrapassados) podem ser transformados em algo que reflita o mundo contemporâneo? Como um mapa impresso pode se tornar um corpo no espaço? Essas são algumas das questões que me acompanharam durante o processo de trabalho de “Águas de Alto Mar”.
Marina Camargo, setembro de 2026.


Marina Camargo
Waters of High Seas
09.09. – 18.10.2026
* Agradecimento a Elisabeth Sonneck, a Paula Carralero Bierzynska, ao professor Ronny Schomacker e à Hochschule für Technik Berlin.