Segundo o historiador de arte David Summers, “[a] cartografia baseia-se em duas condições fundamentais: planaridade, hierarquia e descrição métrica. A planaridade é definida pelas possibilidades que oferece para a apresentação mais clara possível das relações, e os mapas, de uma forma ou de outra, mostram as relações dentro do mundo em geral […]. Um mapa mostra o mundo concebido como um todo (ou parte do mundo concebido como um todo) em suas relações, que podem ser qualitativas (e hierárquicas) ou quantitativas (e descritivas), ou ambas. Os elementos dos mapas são geralmente mostrados em planta, mas também podem ser mostrados em espaço virtual, como vistas de casas ou cidades, por exemplo [1]”.
É essa pretensão de oferecer uma imagem totalizante do mundo, com toda a sua carga ideológica e ilusória, que parece mitigada, ou desviada, nos trabalhos de Marina Camargo. A artista parte da descrição positiva do planeta, entende que alguma coisa mudou ali e nos mostra o efeito que isso passa a ter sobre os elementos de sua descrição.
Para representar o mapa-múndi, a cartografia moderna enfrentou um problema similar ao da pintura europeia nos últimos séculos da Idade Média: encontrar meios para reproduzir o espaço tridimensional em uma superfície plana. A dificuldade cartográfica era imensa. Como definir a forma e o tamanho dos sólidos? A sua relação com os oceanos? Como dispor os elementos uns sobre os outros, uns diante dos outros? Como retirar a curvatura, os acidentes e apresentar tudo o que é sinuoso e esférico como manchas recortadas, estáveis? Como dividir o mapa político? Como representar o relevo, as diferentes naturezas minerais? Como indicar caminhos?
Não se tratava apenas de transpor as relações geográficas de uma gigantesca orbe cósmica para uma carta, mas atribuir a esse espaço sentido, direções, prospectar o tamanho de cada sólido, atribuir uma razão de comparação entre continentes, ilhas e oceanos, orientá-los de acordo com os pólos e pontos cardeais de uma determinada forma, atribuir um centro, de maneira legível, pragmática, que permitisse o uso instrumental para aqueles que utilizavam essas projeções. Havia problemas de definição, de transposição, de orientação, em todos os seus sentidos.
Tais decisões foram marcadas por particularidades políticas, religiosas e culturais das populações que demandaram essas projeções e se metamorfosearam de acordo com as necessidades de dominação colonial. Usos que se supunham neutros, mas incluíam distorções, desencontros, formas de subjugar e dominar. Ainda assim, as cartas supunham alguma estabilidade na relação entre o que era sólido, o que era líquido, o que era atmosfera, cada divisão do espaço político.
Diferentemente da realidade, supunha-se nelas um mundo pronto, como se tivesse saído intocado da criação. Mas o seu uso indicava transformações constantes e violentas, que muitas vezes, como se diz, redesenhavam os mapas.
É disso que parecem tratar os trabalhos de Sistema-mundo, de Marina Camargo. Lá, tudo é mudança, tudo é movimento. As conexões pressupostas parecem se desfazer e outras relações são sugeridas entre os termos empregados. Não só os seres vivos circulam por esse cenário superficial, mas o cenário se modifica devido a crises políticas, sociais, ambientais e culturais. O mapa aqui é a narrativa do desencontro e do absurdo, não a carta que permite encontrarmos cada coisa em seu lugar, mas a indicação de vínculos em transição e entropia permanente.
Não por acaso, a artista adota no nome da mostra a teoria dos sistemas-mundo, de intelectuais como Immanuel Wallerstein, Giovanni Arrighi e Samir Amin. Trata-se de uma explicação dos processos históricos relacionados às expansões espaciais. Supõe, assim, geografias históricas, em que o ciclo de investimento, inovação e continuidade histórica constitui geografias para além da compartimentação das histórias nacionais. A artista, como os autores de sua predileção, parece interessada na formação de impérios e relações interterritoriais e interestatais na composição das economias, histórias e geografias locais. São deslocamentos de longa duração, a compor áreas que se formam e se diluem em um mundo em permanente transformação. Esses deslocamentos, suas continuidades e rupturas, interessam Marina Camargo. Sobretudo agora, que vivemos uma mudança de centralidade do eixo econômico do Oceano Atlântico para o Oceano Pacífico.
Talvez por isso, o vídeo O mapa redesenhado seja uma chave para entendermos toda a exposição. Nele, Marina parte de citações de jornal sobre política internacional, em um contexto de destruição intermitente, guerra e genocídio, como o de nossos tempos. Embora as frases originalmente digam respeito a situações específicas, aqui elas são desterritorializadas — como os seus trabalhos — e transformadas em chavões. São lugares comuns do que deixou de ser escrito pela descrição positiva e estável dos mapas.
Em um momento do vídeo lemos: “Ele disse: nós não reconhecemos mais a nossa própria cidade”. Pouco depois, na mesma dramaturgia, aparece: “Ela disse: Os lugares foram apagados do mapa e nós desaparecemos das notícias”. As frases que se assomam indicam um colapso de concepções prévias em relação ao presente e ao futuro.
No contexto em que as sentenças surgem, parece que tudo foi destruído pela guerra e aquele marco cartográfico, bem como os seus caminhos, não está mais lá. A descrição parece apagar as condições reais de vida, o apagamento dos vínculos, a corrosão constituinte da integração daquelas cidades na disputa internacional. O que fazer então com os mapas que se usava até então? Como reconstruir os novos mapas e as novas direções, levando em conta a negatividade da história, que está a corroer quaisquer descrições positivas e estáveis? A transformação entrópica dos mapas, e da realidade internacional, vista desde aqui, segue e seguirá.
A artista parece lidar com o que resta e não mostra mais os mapas como facilitadores de caminhos e rotas, agora eles são manchas geográficas que sugerem novas relações e aproximações entre o que simboliza e deixa de simbolizar. Tal chave nos permite entender trabalhos como os Mapas de fuga, Inventário de ilhas 1 e Mapa-Mole: frações de espaço num olhar mais crítico. Em Inventário de ilhas 1, os mapas, aqueles pedaços de terra no Oceano, não se relacionam entre si: são manchas negras, bem delimitadas, distribuídas em um gradeado regular, como meridianos, uma sem relação aparente com a outra, e muito menos ligadas a alguma rota ou continente. São formas perdidas em um sistema de classificação que as retira das regras do jogo geográfico e as insere em outra partida. As ilhas estão aqui segregadas, à procura de novos sentidos, vocações e relações. Essa transformação causada pelo isolamento é mais forte em Mapa- Mole: frações de espaço.
São reconfigurações que aproximam os procedimentos variados de Camargo aos de operações artísticas que trabalham criticamente o arbítrio dos mapas, de nomes como Joaquín Torres García, Alighiero Boetti, Jasper Johns, Agnes Denes, Öyvind Fahlström e tantos outros. Marina Camargo, como poucas, entendeu que vivemos um mundo em transformações internacionais muito radicais. Aliás, até mesmo os modos como os estados, instituições e empresas transnacionais se relacionam parecem estar se modificando. Há o risco provável de colapso, mas em trabalhos mais otimistas, como Transições #10 e Continentes em transição, trata-se da construção de novos sentidos nas relações entre países e continentes.
Num período de hipervigilância, inteligência artificial e de uma racionalidade técnica e instrumental que tende a se confundir com a própria experiência, onde tudo parece legível pelas lentes mais ideológicas possíveis, esse lançar de sombra sobre as relações terrenas ajuda a tapear uma transparência ofuscante e enganosa, fazendo dela uma coleção de absurdos.
[1] SUMMERS, David: Real Spaces. Londres, Phaidon Press, 2003 [p. 421]