“Entre conectar e recortar, uma geocrítica do literário“
Trecho do texto de Ana Kiffer publicado na revista Fabula – la Recherche en Littérature, originalmente em francês (ver PDF abaixo).
“(…) A primeira obra, de 2023, intitulada “Geografias Desdobradas”, é aquela que traça os contornos da hipótese deste texto. E isso porque ela exige dois gestos fundamentais. Um deles é o de recortar a organização, os contornos, as distribuições da Terra, ou seja, o imaginário do território, das fronteiras, das identidades nacionais, entre outros. Ele desorganiza, no plano perceptivo, mental, mas também simbólico — e, portanto, afetivo e imaginário —, nossa relação com a representação do mapa do mundo, da Terra, ou, por que não dizer, de um Todo-Mundo (Glissant, 1997). E essa desorganização começa com o corte. É ele que atua para desdobrar, de outra forma, os desenhos dos territórios — continentes ou países. O segundo gesto ocorre após o corte. Uma vez desdobrados, o que fazer? O que vemos? Qual é esse novo mapa? Quais são eles, esses territórios esvaziados e aqueles de madeira?
O que me interessa neste quadro de Marina Camargo é, em primeiro lugar, o deslocamento do mapa-múndi, sabendo que, sob uma perspectiva geocrítica, isso implica um deslocamento dos fundamentos da episteme ocidental. Há também o apelo à ruptura, ao fato de que é preciso desdobrar para poder redobrar de outra forma. Toda uma gestualidade de refazer para poder reimaginar o mundo. Eu diria que, se levarmos a sério os territórios feitos de madeira, esse apelo decorre de uma necessidade: os limites do extrativismo revelam seus efeitos. Sofremos de uma necessidade — a continuidade da vida de todos está ameaçada. Mas, de fato, esse trabalho sobre as rupturas, necessárias para uma nova reorganização de um Todo-Mundo — uma nova “Geografia Desdobrável” — não pode ser pensado como unificador, como algo que vai preencher lacunas. Nesse sentido, é importante ver em conjunto os três quadros a seguir, mesmo que eles o precedam na ordem temporal, uma vez que fazem parte da série “Mapas-moles”⁶, de 2022.
É a partir do momento em que a artista vê a América do Sul amolecida pela borracha, afinada a ponto de se tornar seu espectro (subtítulo da primeira tela mostrada acima), que podemos começar a imaginar como puxar os fios, ou como cortar certos fios é necessário para refazer de outra forma nossos laços.
Os dois últimos quadros, ainda mais evidentes, são ao mesmo tempo um sinal de alerta e um apelo: quais são os laços capazes de reinventar outro mar em “O Atlântico Negro” (Gilroy, 1993)? Por que vivemos de costas uns para os outros aqui na América do Sul? Que laço se criou às nossas costas, atrás de nós mesmos? Em suma, a alteração perceptiva e simbólico-afetiva me parece fundamental se tentarmos pensar o campo sensível, o campo da partilha do sensível (Rancière, 2000), que é construído também pelas narrativas e pela imaginação fabuladora e/ou literária que atravessa, como um desses fios desfiados, as obras de Camargo. (…)”
Ana Kiffer é escritora, pesquisadora e professora brasileira, especializada em literatura contemporânea e em temas como corpo, representação e política. Leciona desde 2005 no Programa de Pós‑graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC‑Rio e também atua na UFF, no Programa de Estudos Contemporâneos das Artes.Tem formação em psicanálise, filosofia e letras, com mestrado e doutorado em literatura, e é conhecida por seu trabalho crítico sobre Antonin Artaud e Édouard Glissant, investigando, sobretudo, a ideia de “Relação” entre os corpos, os afetos e a escrita. Além de livros e ensaios, Kiffer também participa do campo das artes visuais, tendo atuado como curadora de projetos como a mostra Corte/Relação: Antonin Artaud e Édouard Glissant na 34ª Bienal de São Paulo (2021).